NOTÍCIAS, ARTIGOS E MÍDIA

Respeto en escena: red latinoamericana para denunciar abusos en la industria audiovisual | Mujeres trabajadoras del cine y de la televisión se unieron a la iniciativa que tiene como objetivo visibilizar la violencia en el rubro. Desde Chile se sumaron actrices como Mariana Loyola y Andrea Gutiérrez Vásquez | EL PERIODISTA | CHILE | 12 de março de 2021

LEIA A ÍNTEGRA: https://www.elperiodista.cl/2021/03/respeto-en-escena-red-latinoamericana-para-denunciar-abusos-en-la-industria-audiovisual/

“Você não precisa pensar, deixa que eu penso!”: a violência psicológica nossa de cada dia | Coluna de Luciana Sérvulo da Cunha | CATARINAS – JORNALISMO COM PERSPECTIVA DE GÊNERO | 11 de março de 2021 | “Inimiga impiedosa, invisível e perigosa, a violência psicológica não deixa marcas físicas, mas gera grandes traumas e profundas feridas psíquicas. É a porta de entrada para outros tipos de violência que não andam nunca só: a violência física, a violência política, a violência moral, a violência patrimonial e a violência sexual.

LEIA A ÍNTEGRA: https://catarinas.info/colunas/voce-nao-precisa-pensar-deixa-que-eu-penso-a-violencia-psicologica-nossa-de-cada-dia/

Cineasta lança rede latino-americana contra assédio e abuso no meio artístico | REVISTA FÓRUM – 8 de março de 2021 | “Um dos objetivos da nova rede é criar um espaço seguro e de acolhimento para que mulheres consigam falar sobre violência psicológica e receber ajuda. Para tal, o projeto conta com a parceria de outros movimentos sociais que disponibilizam assistência psicológica e de formalização de denúncias, como é o caso do Tamo Juntas!, Me Too Brasil, Projeto Justiceiras e o Instituto Dona de Si

LEIA AQUI: https://revistaforum.com.br/mulher/cineasta-lanca-rede-latino-americana-contra-assedio-e-abuso-no-meio-artistico/

A ONG RESPEITO EM CENA, realizadora da Campanha Latinoamericana de Combate à Violência Psicológica no Meio Artístico, participou como organizadora juntamente com 85 entidades nacionais, do ATO POLÍTICO VIRTUAL 8 DE MARÇO NACIONAL. Veja, abaixo do vídeo, a programação.

A RESPEITO EM CENA está no Bloco 3 com o vídeo da coordenadora geral Luciana Sérvulo da Cunha.

PROGRAMAÇÃO | ATO POLÍTICO VIRTUAL DO 8 DE MARÇO BRASIL 2021

Abertura: As Cantadeiras (MST)

13h | BLOCO 1: Dandara dos Palmares

CULTURAL: 8M Popular (MG)
MEDIADORA 1: Vanja (UBM)
MEDIADORA 2: Mariana Lacerda (MMM)

  1. UBM – União Brasileira de Mulheres
  2. CONTAG – Confederação Nacional de Trabalhadores da Agricultura
  3. UNISOL Brasil – Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil
  4. LBL – Liga Brasileira de Lésbicas
  5. ANDES-SN – Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior
  6. Dilma
  7. Coletivo de Mulheres Sem Teto – MTST
  8. Fórum de Mulheres do Mercosul
  9. Levante Popular da Juventude
  10. UNICOPAS – União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias

14h | BLOCO 2: Nísia Floresta

CULTURAL: Maria Isabel (PR)
MEDIADORA 1: Niege (PSOL)
MEDIADORA 2: Sandra Mariano (CONEN)

  1. Marcha Mundial das Mulheres
  2. ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandas e Pós-Graduandos
  3. Levante das Mulheres Brasileiras
  4. RENFA – Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas
  5. Secretaria Nacional de Mulheres do PT
  6. Mulheres FUP – Federação Única dos Petroleiros
  7. Consulta Popular
  8. Rede Nacional de Promotoras Legais Populares
  9. FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas
  10. Feministas AntiCapitalistas/RUA

15h | BLOCO 3: Ana Maria Primavesi

CULTURAL: Laize (CE)
MEDIADORA 1: Anne (PT)
MEDIADORA 2: Mazé (CONTAG)

  1. CUT – Central Única dos Trabalhadores
  2. ONG “Respeito em Cena”
  3. UNE – União Nacional de Estudantes
  4. CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
  5. Setorial Nacional Mulheres PSOL
  6. UJB – União da Juventude Brasileira
  7. Conselho Federal de Serviço Social – CFESS
  8. ABJD – Associação de Advogados e Advogadas pela Democracia
  9. MML – Movimento Mulheres em Luta

16h | BLOCO 4: Marielle Franco

CULTURAL: Thamires Tanous (MS)
MEDIADORA 1: Juneia (CUT)
MEDIADORA 2: Élida (UNE)

  1. UNEGRO – União de Negras e Negros pela Igualdade
  2. NCST – Nova Central Sindical dos Trabalhadores
  3. FENAJUFE – Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal
  4. Intersindical – Central da Classe Trabalhadora
  5. Secretaria Nacional de Mulheres do PCdoB
  6. UJS – União da Juventude Socialista
  7. MUCB – Mulheres Unidas Contra Bolsonaro
  8. CAFF – Coletivo de Advogadas Feministas e Familiaristas
  9. Resistência Feminista
  10. Unidade Classista

17h | BLOCO 5: Walkiria Afonso Costa

CULTURAL: Performance das mulheres do Vale do Mucuri (MG)
MEDIADORA 1: Keully (UJS)
MEDIADORA 2: Yuna (ABGLT)

  1. Via Campesina
  2. Grupo de Trabalho de Mulheres da ANA – Articulação Nacional de Agroecologia
  3. Articulação Nacional de Marchas da Maconha
  4. Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro – PCB
  5. CONEN- Coordenação Nacional de Entidades Negras
  6. UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
  7. Coletivo Mães na Luta
  8. Coletivo Impacto Feminista
  9. CST – Corrente Socialista dos Trabalhadores
  10. CGTB – Central Geral dos Trabalhadores (as) do Brasil

18h | BLOCO 6: Negra Zeferina

CULTURAL: Thabata Lorena (DF)
MEDIADORA 1: Natália (Levante das Mulheres Brasileiras)
MEDIADORA 2: Atiliana (Via Campesina)

  1. FNPLA
  2. CONAM – Confederação Nacional das Associações de Moradores
  3. Coletivo Juntas!
  4. Articulação Nacional das Gigantes na Luta
  5. Secretaria Nacional de Mulheres do PSTU
  6. MORHAN MULHERES – Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase
  7. Coletivo de Proteção à Infância Voz Materna
  8. Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais – ABRATO
  9. ADJC – Advogados e Advogadas pela Democracia Justiça e Cidadania
  10. QRC – Quilombo Raça e Classe

Encerramento Cultural: Marias (PA)

Entrevista com a documentarista Luciana Sérvulo e a atriz Ângela Vieira sobre o abuso emocional contra mulheres no cinema, teatro e TV. Com Cynara Menezes | CANAL DE YouTube DA REVISTA FÓRUM | 5 de março de 2021.

Respeto en Escena: actrices y directoras latinas crean una red contra la violencia en la industria audiovisual | LA TERCERA [Santiago de Chile] | 2 de março de 2021 | “Diversas profesionales del mundo de la TV y el cine de la región se sumaron a la iniciativa, que busca denunciar distintos tipos de acoso y abusos psicológicos que sufren las mujeres en el rubro, además de crear un código de ética para el medio. La red, en la que participan actrices chilenas como Mariana Loyola y Andrea Gutiérrez, fue impulsada por la realizadora brasileña Luciana Sérvulo, quien asegura que “el sistema de machismo patriarcal en el que vivimos se refleja en un set de filmación”.” Leia a íntegra: https://www.latercera.com/culto/2021/03/02/respeto-en-escena-actrices-y-directoras-latinas-crean-una-red-contra-la-violencia-en-la-industria-audiovisual/

LIVE de lançamento da Campanha Latino-Americana de Combate à Violência Psicológica no Meio Artístico promovida no INSTAGRAM do INSTITUTO DONA DE SI (@institutodonadesi) com participação da atriz e autora Suzana Pires e da cineasta Luciana Sérvulo da Cunha – coordenadora-geral e embaixadora da ONG Respeito Em Cena. 

Nasce uma rede de artistas latinoamericanas contra a violência psicológica | EL PAÍS | 1º de março de 2021 | “A matéria-prima com que as atrizes trabalham é o corpo, a voz e a empatia para se apropriar de um novo papel. Por isso, várias das atrizes desta nova rede latino-americana contra a violência psicológica citaram os ataques recorrentes a seu corpo como foco das agressões que sofreram.” Leia a íntegra aqui: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-03-01/nasce-uma-rede-de-artistas-latinoamericanas-contra-a-violencia-psicologica.html

Profissionais de 11 países lançam rede contra violência psicológica no meio artístico | A ação é uma iniciativa da ONG brasileira Respeito em Cena e reúne artistas da América Latina | BRASIL DE FATO | 2 de março de 2021 | A ação é uma iniciativa da Respeito em Cena, coordenada pela documentarista, diretora artística e ativista Luciana Sérvulo da Cunha, de São Paulo. Cunha é uma das embaixadoras da campanha, ao lado da atriz, cantora e compositora baiana Mariene de Castro. Os profissionais do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Costa Rica, Nicarágua e México integram a iniciativa. Leia a íntegra: https://bit.ly/3kOY8cD

Lançada rede latino-americana contra violência psicológica no meio artístico | SUL21 | 2 de março de 2021 | Um grupo de artistas de cinema, teatro, dança, música e televisão lançou, dia 1º de março, simultaneamente em 11 países da América Latina (Brasil, México, Nicarágua, Costa Rica, Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia, Chile, Argentina e Uruguai) a primeira Campanha Latino-Americana contra a Violência Psicológica no Meio Artístico. A campanha foi lançada com um manifesto, nos 11 países, assinado por artistas, psicólogas, diretores de cena, coereógrafos, professores, cineastas, produtores, críticos de arte, médicas, sociólogos e por profissionais que atuam nos bastidores e na produção de espetáculos. No mesmo dia foi lançado o primeiro vídeo da campanha, “Não é ficção”, que está disponível na página da ONG Respeito em Cena.
https://www.sul21.com.br/ultimas-noticias/geral/2021/03/lancada-rede-latino-americana-contra-violencia-psicologica-no-meio-artistico/

“Nada será como antes” | Antes as mulheres temiam por suas carreiras ao denunciar assédio, o tabuleiro agora é regido pela palavra da vítima. “Acostumem-se”, diz Suzi Pires | https://vogue.globo.com/semidade/Dona-de-Si/noticia/2021/01/nada-sera-como-antes.html

“Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica” | Este artigo se propõe a refletir sobre a violência silenciosa exercida pela perversão narcísica, abordando seus aspectos metapsicológicos, fenomênicos e clínicos. Por André Martins. http://cprj.com.br/imagenscadernos/04.Uma_violencia_silenciosa.pdf

Quais são e o que fazer com as manipulações perversas dos abusadores”. | Inversão em abuso emocional é uma espécie de lavagem cerebral misturada com o famoso termo de Gasligthing, mas com o diferencial de que nesta existem duas diferenças na mesma ação, uma negando a outra. Por Silvia Malamud. https://www.somostodosum.com.br/artigos/psicologia/quais-sao-e-o-que-fazer-com-as-manipulacoes-perversas-dos-abusadores-17537.html

A VIOLÊNCIA CONTRA DANI CALABRESA E A CRUEL CONIVÊNCIA DA GLOBO

por Luciana Sérvulo da Cunha

Um indivíduo pode conseguir destruir o outro por um processo de contínuo e atormentador assédio.” Hirigoyen

Começo essa escrita expressando minha solidariedade e meu carinho à Dani Calabresa exaltando sua coragem em denunciar o ex-humorista Marcius Melhem por assédio moral e sexual na Rede Globo, depois de ter percorrido um longo caminho interno na empresa, sem que essa lhe tenha a acolhido de forma apropriada ou tomado as devidas e necessárias providências, agravando o seu sofrimento. Aconselhando a atriz a fazer terapia, dando assim a entender que a culpa e o problema seriam da vítima e protegendo o agressor, a Rede Globo deixou evidente o que é e como opera o machismo estrutural. Manifesto também o desejo de que não precisemos mais ressaltar e admirar a coragem de uma mulher quando ela viveu o inferno, teve sua vida despedaçada e por uma questão de sobrevivência do seu corpo fragmentado e sua alma roubada, tem que gritar suas feridas. Sim, estupradores são ladrões de corpos e não se diferenciam de abusadores (as), ladrões (as) de almas. Que nós mulheres possamos viver em um mundo onde não precisamos mais ser injustamente corajosas assim!

Passar por uma relação abusiva com pessoas famosas, admiradas, adoradas e seguidas por milhões de pessoas é o pior dos mundos, pois além do fato de, involuntariamente, termos que trombar constantemente com essa pessoa e a sua “arte” na grande mídia e nas redes sociais, engolimos a seco e revivenciamos dor a cada vídeo, show, espetáculo e comentários nos grupos de WhatsApp, geralmente seguidos de infinitos coraçãozinhos iludidos acompanhados de um surreal “perfeita”(o) ou “phodástico (a)”, nos trazendo a sensação de uma impotência corrosiva e massacrante, sentindo na pele o que significa ter que lidar com a opressão do status e o “poder” da imagem em uma sociedade narcísica onde eles (as) são eleitos Reis e Rainhas. Falo do lugar de quem viveu uma relação de abuso emocional com essas características e até conseguir entender, aceitar e principalmente nomear que o que tinha acontecido comigo se chama “violência psicológica”, levou muitos tempos. Outro tempo tão longo, tem sido a profunda busca pela cura, pois o abuso emocional pode ser devastador para a saúde mental, causando imenso sofrimento psíquico.

A violência psicológica é a violência mais comum praticada contra as mulheres e uma das mais difíceis de ser reconhecida e combatida. Seja pela cultura machista e patriarcal em que somos criadas e estamos inseridas, seja pela falta de pesquisa, informação e ferramentas de combate a esta violência tão naturalizada e enraizada no cotidiano das brasileiras ou pelas suas características específicas: o abuso emocional não deixa marcas físicas. Ele é uma violência silenciosa por ser velada e insidiosa.

A violência psicológica está centrada na questão do poder e domínio sobre o outro e pode ser executada por pessoas com perversão narcísica ou algum tipo de transtorno de personalidade. Conforme o psicanalista e filósofo André Martins define, “a vítima a sofre de maneira silenciosa porque se trata de uma violência não assumida e negada pelo (a) agressor(a), que sutilmente inverte a relação acusando o outro de ser o culpado pela situação. Desta forma, a vítima se sente confusa e acaba por sentir-se culpada, o que, por sua vez, inocenta o (a) agressor(a). Não se trata de uma violência física, e esta não é pontual: estende-se ao longo do tempo. Como essa não é uma perversão explícita, ao contrário, ela se mistura no dia a dia, nos pequenos atos, nas pequenas relações, passa despercebida”. Assim, o (a) agressor (a) vai deturpando de maneira sutil e pejorativa a visão que a vítima tem de si, retirando sua vitalidade e vivacidade, diminuindo, humilhando, fazendo ruir sua auto-estima e sua paz interior, a induzindo a um estado de confusão, vulnerabilidade e consequentemente, de dependência emocional, “levando um longo tempo para a vítima perceber, e sobretudo para reconhecer, estupefata, que está presa numa teia”.

O abuso emocional geralmente está presente em todas as outras formas de abuso e pode ser uma porta para outros tipos de violências, como a violência sexual. Ele pode começar de forma sutil, com desencorajamentos à realização de projetos próprios, por um constante apontar de erros, falhas e defeitos da vítima bem como a subestimação de sua capacidade, até chegar à xingamentos, gritos, cobranças excessivas, falsas acusações, perseguição, desautorização das decisões pessoais (roupas, escolhas, amizades, horários, estudos/trabalho), chantagens, ameaças, depreciações, ciúmes frequentes, ironias e exposição da figura. Alguns exemplos aqui dados podem parecer óbvios, mas ressalto que quando o abusador (a) lança mão deles em uma relação, seja ela amorosa, uma relação de amizade ou de trabalho, a presa já está enredada em sua teia e não consegue ter clareza suficiente para assim perceber. Algumas relações onde já existe um nível de entrega e confiança da parte da vítima, o abusador (a) não precisa fazer uso de uma violência mais explícita, bastando manter um comportamento sedutor e encantador com medidos tons de manipulação e dubiedade com o clássico “morde assopra” ou a prática do sumiço e silenciamento, uma vez que o amor e a paixão da vítima já é o suficiente para servir de seu suprimento narcísico.

Pondero aqui que pessoas narcísicas perversas podem estar presentes em nossas vidas em um número muito maior do que possamos imaginar e elas geralmente tem por características imediatas a inteligência, a sedução, a gentileza, a diplomacia, a boa retórica e muitas vezes, o bom humor. Elas não chegam com o pé na porta…não existe abusador ou abusadora que não seja atraente e encantador(a) e é justamente dessa forma que ela atrai suas futuras vítimas. Conforme vamos convivendo na intimidade com eles (as), o que percebemos é uma insegurança gritante, uma inveja incontrolável, uma solidão colossal, uma falta de empatia abismal, uma constante angústia em meio a grande imaturidade emocional e uma incapacidade total de compartilhar suas dores, pois não conseguem olhar pra dentro profundamente e lidar com seus próprios sentimentos e emoções. O (a) narcisista perverso (a) é incapaz de admitir seus erros, sempre se colocará como vítima e projetará nos outros as suas dificuldades, os seus monstros internos e todos os fracassos de sua vida, justificando assim as punições e crueldades que comete e cometeu ao longo de sua vida em muitas relações abusivas, tendo deixado vidas, literalmente, como terras arrasadas.

Além da violência sofrida, muito está oculto no silêncio doído das vítimas e na omissão dos (as) agressores(as). Um país que ignora os altos índices de violência contra a mulher, pouco estuda cientificamente os perfis e as relações entre vítimas e agressores (as), acaba alimentando o silêncio cortante que beneficia agressores (as), levando as vítimas à depressão, em alguns casos ao suicídio ou à morte por doença degenerativa grave, mantendo assim intacto o ciclo de abusos. O pouco que se estuda no Brasil, limita-se em geral ao assédio moral no trabalho, mas que, devido ao preconceito, à misoginia e ao racismo estrutural que permeiam a nossa sociedade e a elite brasileira, faz com que os resultados desse combate seja cada vez mais favorável aos agressores(as). Considerando também um judiciário seletivo, principalmente quando uma boa parte desses agressores (as) são pessoas dotadas de algum poderio (capital político, financeiro, religioso ou artístico) e as vítimas, além do dano psicológico sofrido, ainda devem lidar com a pressão da opinião popular, ou as ameaças e retaliações dos(as) agressores (as), seus cúmplices, fiéis seguidores e toda sua rede de poder a lhes garantir imunidade e proteção.

Por isso que hoje, por mais torto ou doído que pareça, é um dia para ser lembrado. Por maior “poder” que uma grande empresa ou uma imagem possa ter nessa nossa doente sociedade narcísica do espetáculo, quando vazia, ou melhor, quando construída ou alimentada e mantida com energias sugadas e almas roubadas, ela vai, ahhh se vai, um dia, murchar e cair!

* Luciana Sérvulo da Cunha é documentarista, terapeuta holística e ativista. Diretora dos filmes ” A Rua dos Meninos” e “Hijos de la Revolucion” , foi assessora especial da presidência da República e diretora de patrocínios da SECOM no governo Lula. Trabalhou na Itália com o prêmio Nobel Dario Fo, foi executiva do projeto WE de Empoderamento de Mulheres na Índia em parceria com a ONU, assessora da EBC /TV Brasil e diretora artística da TV INES, televisão pioneira para deficientes auditivos no Brasil. Atualmente é parceira do #MeTooBrasil e acaba de fundar a ONG #RespeitoEmCena onde coordena campanha educativa de combate à violência contra a mulher no meio artístico.

Instagram @Luciana Sérvulo

Email: respeitoemcenacoordenacao@gmail.com

“BRASILEIRÃO BOA PINTA: CARA, NOME E ENDEREÇO FIXO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER”

por Luciana Sérvulo da Cunha *

No século 21, no ano de 2021, bem aqui no Brasil, Paulo José do Amaral Arronzi, Antônio Sebastião da Silva, Gerson Aparecido Machado, Rodrigo Alves Pereira, Elisângelo Marconis Francisco dos Santos, Zenilton Pereira, Cristiano Gomes, Francisco Pereira da Silva, Agnaldo dos Santos Oliveira e mais de 1.300 homens brancos e pretos, jovens, adultos, idosos, pobres e ricos, de diversas profissões e de todas as religiões, mataram.

Esses homens “boas pintas”, pais de família, o típico “brasileirão cidadão de bem” sem antecedentes criminais e a maioria sem doenças mentais, por não aceitarem o término do relacionamento com suas esposas e namoradas, decidiram golpear com força bruta, ferir e destruir seus corpos, esfaqueando-os ou queimando-os até a morte, exigindo que seus desejos fossem realizados, numa investida extrema, cruel e desesperada de comprovação de poder e controle sobre os corpos femininos.

Com a marca do sangue de suas ex-esposas e ex-namoradas nas mãos atrelada a um macabro gozo auto-afirmativo de sua obscura existência, esse agora “homem fantasma”, se cumprida a lei, terá seu corpo físico encarcerado. Mas inconformado por não se identificar como agressor, seu gozo mental continuará intocável e será ininterruptadamente, diretamente e indiretamente, visivelmente e invisivelmente, alimentado e mantido pelo “homem instituição” do qual é signatário desde os séculos passados pela herança do patriarcado, carregando a titularidade de uma masculinidade tóxica que “permite organizar os corpos a partir do significante “homem”, agrupando homens de “verdade”, homens negros, homens gays e homens trans (Neuzi Barbarini), autorizando assim a perpetuação de todos os tipos de violências.

O patriarcado é aquele “pentavô” branco, estrangeiro e milionário com filiais no mundo inteiro, que começou a construir grandes fortunas aqui no Brasil investindo no sequestro, roubo, estupro, matança, exploração e escravização de mulheres indígenas e negras, inaugurando uma nada formosa e gentil “mistura de raças”, romanticamente ensinada nas nossas escolas como “miscigenação”. Acumulando capital desde então, a descarga de sua herança é até os dias de hoje bestialmente apreciada e degustada em cadeia nacional por homens covardes que brutalmente querem se apossar das mulheres, transfigurando seus corpos femininos, muitas vezes mutilados e ensanguentados, em troféus.

Mesmo sendo esse “homem fantasma” um “homem instituição”, contando com o suporte de todo o nosso sistema social programado com o mecanismo perverso de poder patrocinador de uma violência que ironiza, desdenha,manipula, humilha, exclui, oprime, massacra, trucida e extermina mulheres, nunca conseguirá de fato dominá-las retirando seu poder natural. A socióloga alemã Maria Mies diz: “Esse é realmente o problema de homens, desde os tempos imemoriais até hoje. Eles não conseguem aceitar que a vida, a vida humana advém de uma mãe, de uma mulher. Esse é o problema deles até hoje. Eles não são o início da vida. Eles não podem dar vida a uma criança”.

Nessa rota secular aniquilante e auto-destrutiva, a partir da não aceitação traduzida em ódio, inveja e frustração e em coadjuvação com instituições religiosas, homens brancos vem moldando leis e contando a história do mundo, criando mitos baseados em uma suposta superioridade do homem a quem a mulher deve se sujeitar, servir e obedecer. Principal fiador do pensamento machista de que a mulher é “causa de pecado para o homem”, o Cristianismo, através da Igreja Romana, estigmatizou e satanizou a mulher por séculos-como na figura das bruxas que foram perseguidas e jogadas na fogueira-fomentando a base do misoginismo no Ocidente. Nos dias de hoje, em sinergia com essa versão torpe da história, muitas Igrejas seguem a mesma cartilha, dando seu crivo veladamente (em alguns casos não tão veladamente assim) para que o homem siga tendo o “direito de mando”, se pensando e se sentindo o centro do mundo senhor de todas as terras, determinando como mulheres devem se comportar, que lugar elas podem frequentar, que roupa é mais apropriada usar, quando ter filhos, se podem, devem ou em que circunstâncias abortar.

Detentoras do “poder do corpo da mãe” que fomenta, protege e dá início à vida, como reflete Mara Mies, ao longo da história as mulheres vem resistindo contra toda essa sorte de opressões e violências, lutando por respeito, equidade e pelo direito básico de decidir sobre seu corpo, sua vida e suas regras. O direito ao acesso às faculdades, ao voto, ao divórcio, a prática do futebol e a de terem e portarem um cartão de crédito (pasmem!) foram conquistados a duras penas, graças às mulheres feministas e seus aliados. Entretanto, somente ontem na Constituição de 1988, nós mulheres passamos a ser reconhecidas como iguais aos homens e mesmo assim, somente em 2002 a falta da virgindade deixou de ser crime quando um homem poderia pedir a anulação do casamento, caso descobrisse que a esposa não era virgem antes do matrimônio.

De modo que, em pleno século 21, nós continuamos sendo perseguidas e mortas por sermos mulheres, penalizadas e obrigadas a parir mesmo quando confrontadas com uma gravidez dolorosamente indesejada por falta de estrutura material, emocional e psicológica. Pelo número alarmante e crescente de crimes de ódio contra as mulheres ou feminicídios (a cada 2 horas uma mulher é assassinada), a mulher parece ter deixado de ser para o homem apenas uma brincadeirinha, uma piada e um joguete para se tornar um perigo iminente, uma ameaça real ao “homem institucional” que não consegue ressignificar e se desvincular de sua identidade nociva, sem perceber que ele também acaba sendo vítima de seu próprio veneno. Nesse cenário, a despenalização do aborto parece encarnar o maior pesadelo da masculinidade tóxica, uma vez que essa iniciativa poderá, finalmente, devolver à mulher o seu direito básico de decidir sobre seu corpo e o seu próprio destino.

Enquanto no Brasil temos um Governo Federal que estimula a violência contra as mulheres e todas as minorias, onde uma criança de 10 anos que vem sendo estuprada por um tio desde os 6 anos de idade é ameaçada de morte por desejar e necessitar interromper a precoce gravidez por motivos evidentes, a terra do Papa Francisco reconheceu que esse tema não é uma questão criminal e sim de saúde pública, pois só no ano passado mais de 500 mil abortos ocorreram em clínicas clandestinas com ambientes insalubres, acarretando doenças e mortes de milhares e milhares de mulheres. Assim, no apagar das luzes de 2020, a Argentina aprovou o direito das mulheres de optarem pela interrupção voluntária da gravidez até a 14 semana dentro das normas de segurança médica com a garantia do Estado de um atendimento digno e de qualidade. Ao enviar o projeto de Lei para o Senado, o presidente da Argentina Alberto Fernandéz, fez um discurso respaldado pela realidade: “A legalização do aborto salva vidas de mulheres, preserva sua capacidade reprodutiva, muitas vezes afetadas por esses abortos inseguros. Legalizar não aumenta o número de abortos ou os promove”, ressaltando que a criminalização do aborto não é eficaz para conter a sua prática, uma vez que milhões de mulheres o fazem e o continuarão a fazê-lo de forma clandestina e em números preocupantes. ‘O debate não é dizer sim ou não ao aborto. Não é ser a favor ou contra o aborto. A realidade é que os abortos ocorrem e colocam em risco a vida das mulheres. A decisão a ser tomada é se o aborto continuará a ser clandestino ou acontecerá através do Estado argentino, fornecendo segurança, proteção e cuidado a essas mulheres”, concluiu.

A realidade da prática do aborto no Brasil não é diferente. Calcula-se que aproximadamente 1 milhão de abortos clandestinos são realizados anualmente, sendo que 1 entre 5 mulheres de até 40 anos de idade já realizaram um aborto. Os números de mortes e sequelas são incertos, mas estima-se que a cada 2 dias uma mulher morre e cerca de 250 mil internações no SUS (Sistema único de Saúde) são feitas por causa de complicações pós-aborto. Brasileiras com maiores recursos financeiros viajam para outros países onde o aborto é legal ou pagam clínicas que oferecem ambiente adequado e profissionais preparados. Mulheres mais vulneráveis e com maiores dificuldades de acesso a métodos seguros, meninas de 14 anos, negras e periféricas são as maiores vítimas e adoecem, morrem ou são presas, escancarando a desigualdade e revelando a face mais sombria do Brasil composta por racismo, misoginia e toda sorte de preconceitos.

Por essa e as outras razões aqui expostas, respiramos uma brisa de esperança com a conquista das nossas hermanas argentinas, nos renovamos e nos re-juntamos para seguirmos nutrindo a consciência, os bons afetos, a arte, a alegria, a pluralidade, o respeito, a criatividade, o diálogo, a ética e a solidariedade. Assim incansavelmente lutamos para desmantelar o patriarcado até o dia em que viveremos em equivalência de direitos, autonomia e liberdade plena.

E como somos mulheres, sabemos, esse dia, há de chegar!

* Luciana Sérvulo da Cunha é documentarista, terapeuta holística e ativista. Diretora dos filmes ” A Rua dos Meninos” e “Hijos de la Revolucion” , foi assessora especial da presidência da República e diretora de patrocínios da SECOM no governo Lula. Trabalhou na Itália com o prêmio Nobel Dario Fo, foi executiva do projeto WE de Empoderamento de Mulheres na Índia em parceria com a ONU, assessora da EBC /TV Brasil e diretora artística da TV INES, televisão pioneira para deficientes auditivos no Brasil. Atualmente é parceira do #MeTooBrasil e acaba de fundar a ONG.